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De House a Rorty


 
por: Paulo Ghiraldelli Jr

O senso comum do cientista e do profissional liberal diz a seguinte regra: deixe de fora as paixões e as intrigas e busque tratar cada caso ou situação de modo objetivo. Por esta regra, o médico, por exemplo, deve concentrar sua atenção exclusivamente na doença, e esta é entendida como o que se manifesta em um setor do corpo ou do psíquico (o que vale para o advogado, o engenheiro, o professor etc).
 

O Dr. House subverte esse princípio de ouro do positivismo: ele potencializa a intriga, a fofoca e mistura tudo em um caldeirão de emoções no qual ele próprio vive e para onde arrasta toda a sua equipe e, não raro, uma boa parte do hospital e da família do doente. Ele aposta que o caldeirão que pesa contra todo o nascimento de qualquer objetividade é que produzirá a solução objetiva do caso em questão – e ele não erra nunca.

Por que o Dr. House não erra, mesmo fazendo tudo que é o contrário do bom senso e da filosofia metodológica que guia a ciência? Simples: os médicos que escrevem a série parecem querer realmente subverter o que se pensa academicamente da medicina ou de outras profissões liberais. Tendo ou não alguma visão filosófica um pouco mais elaborada – e isso eu não sei –, o fato é que eles, como escritores que conhecem bem o cotidiano do hospital, puseram na praça um médico que é um bom investigador de casos e, no entanto, aparentemente não trabalha com o chamado “método científico” dentro de seus cânones estabelecidos no final do século XIX. Assim, o Dr. House é um bom exemplo para a filosofia contemporânea, seja pela abordagem americana, de Rorty, ou pela abordagem alemã, de Habermas (neste caso, ao menos em parte). Pois em ambas o conhecimento é visto como do âmbito da intersubjetividade e não dos pólos sujeito e objeto. House é o médico que potencializa a liberdade para que a interação das pessoas seja a mais rica possível, e ele aposta que desta situação emergirão boas chances de se chegar a um diagnóstico verdadeiro.

É claro que o modo como House trabalha só é possível para alguém genial e altamente perturbado. Ele eleva ao máximo a temperatura de todas as relações que se estabelecem no seu caldeirão. Ele acredita que quanto menos emoção ocorre no caldeirão ou quanto mais frias são as interações, então, menos chance ele tem de ver a teia da intersubjetividade se estabelecer na rede lingüística, e assim os insights de que precisa para resolver o caso podem muito bem não aparecer. Essa loucura que ele produz no hospital é mais ou menos a loucura em que estamos metidos na vida real. Quando acertamos na vida real, isso significa que agimos como gênios perturbados.

Inspirado em Donald Davidson e não de todo diferente de Habermas, Richard Rorty diz coisa parecida com a prática de House, sobre o modo como fazemos para saber algo em nossas vidas. Não acertamos mais quando procuramos as coisas em um ou outro indivíduo, e também nosso êxito não aumenta quando tentamos olhar “por cima” da situação. Nossos insights dependem de ficarmos criando redes de conversação, potencializando a vida intersubjetiva, ampliando a liberdade das trocas lingüísticas e, enfim, energizando as trocas em todos os sentidos. Quando baixamos o fogo do caldeirão, as teias da intersubjetividade lingüística cedem, e não temos mais no que olhar. Cessam as bolhas do caldeirão e nenhum conhecimento surge.

Ora, mas se é assim, então os passos científicos postos pela doutrina positivista do século XIX foram uma grande bobagem? Não! Claro que não. Os passos tradicionais do procedimento científico, de partir do caso, levantar hipóteses, problematizar, verificar hipóteses por meios de investigação detetivesca racional, buscar testes experimentais e, enfim, estabelecer teses que tomamos como verdadeiras, não estão longe do que House faz. Mas ele não faz isso sem sua pele, ou seja, a partir de uma linguagem que não é a linguagem que se estabelece no caldeirão. Ele está no caldeirão e pratica a mesma linguagem. Está imerso no borbulhar e não tem como ter o insight senão segundo a mesma linguagem de todos. Por isso, então, não podendo sair da linguagem ali posta, sua chance para mudar algo e produzir conhecimento é só uma, a saber, fazer a linguagem ficar ampliada. Dilatar. É o que faz. Infla a rede lingüística que tomo, aqui, como a teia intersubjetiva, e que é o caldo da sopa do caldeirão.

Ah, então é fácil chegar ao conhecimento – basta ir ampliando o fogo alto do caldeirão. Ora, mas como House está no interior do caldeirão, como que ele vai saber o momento em que tudo irá transbordar fazendo a sopa derramar? Claro que a sopa pode derramar. O que não pode ocorrer é ela derramar inteira. Ou melhor: não deve ocorrer. O caldeirão vazio não dá nada, obviamente. Então, é necessário ou saber parar ou saber pegar o insight antes do caldeirão ferver muito fazendo o caldo se perder em uma quantidade exagerada. Nos episódios da série de TV, o Dr. House é salvo, sempre, pelo insight que vem no tempo certo. Nunca ele precisa saber parar. Na nossa vida real, dado que ela não é feita em episódios segmentados, ficamos com medo de esquentar a trama intersubjetiva e fazer a rede lingüística vazar antes de termos o insight. Este é o problema com o qual lidamos. Todas nossas situações que, no limite, são situações de decisão que clamam por um conhecimento que temos de produzir, o que está em jogo é exatamente isto: e se potencializarmos demais o ferver do caldo e o insight não vier, vamos vazar e perder toda a conversação, que irá derramar-se pelas bordas do caldeirão?

É aqui que termina a série de House e começa a vida real. Até aqui, a analogia entre o que Rorty e Habermas dizem vai bem. Mas, o caso de Rorty e Habermas, sem House, começa daí para diante. Pois os filósofos lidam com a vida real. Na vida real não há o “Dr. House voltará no próximo episódio”. Não há antes nem depois. Na vida real as situações não são divididas em capítulos. Durante todo o tempo que a vida real ocorre estamos vivos. Não há férias na vida, só aposentadoria.

Assim, quando temos de decidir algo que depende de produzirmos um saber, e para tal vamos potencializar as experiências ampliando a intersubjetividade, aquecendo-a, o que nos guia é antes a sorte que qualquer outra coisa. Muitos de nós aquecem suas conversações, ampliam suas experiências e, enfim, caem pelas bordas sem qualquer insight.  Temos de ser gênios atormentados para viver. Alguns de nós, no entanto, passam a vida sem insights e ficarão conhecidos apenas como atormentados, sem nunca terem sido geniais. Enquanto não compreendemos isso, que a vida ocorre uma vez só e no sabor das contingências e que viver é estar no caldeirão, não vamos conseguir fazer muita coisa não, nesse caldeirão. No entanto, vários de nós, que não tiverem medo de cuidar para que a liberdade da conversação se amplie ao máximo, verão que a verdade cuidará de si mesma e estará disponível para que, com ela, tenhamos o conhecimento, que nos virão por insights. Muitos de nós, muitos mesmo, a maioria, poderá ser genial várias vezes em um uma vida. Até poderíamos cultivar a esperança de sermos geniais  todos, várias vezes ao dia.
 


Paulo Ghiraldelli Jr. 
filósofo
http://www.filosofia.pro.br

 
 


 
 
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