Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick
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Sobre Faeries e Feministas
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Por: Jennifer Homan
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Tradução: Gabriel Mallet Meissner
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A espiritualidade neopagã tradicional, embora tenham as suas raízes firmemente baseadas em autonomia, flexibilidade, anti-autoritarismo e sistemas de crenças pessoais, tem tido dificuldade de aceitar os radicais em seu meio. Os "radicais" do movimento neopagão são, na minha opinião, as feministas ou bruxas "diânicas" e os grupos de homens gays dentro da Arte, às vezes chamadas de Radical Faeries (N.T.: Fadas Radicais. "Faerie" é uma gíria americana para homossexuais masculinos. Por falta de um termo 100% equivalente em português, preferi manter o termo em inglês). Os medos e as suspeitas que os pagãos mais tradicionais têm destes grupos não são de surpreender quando levamos em consideração que todos nós, neopagão incluídos, fomos criados e educados nesta sociedade patriarcal. Assim como é difícil para a população em geral aceitar o feminismo e a homossexualidade, os neopagãos têm as suas próprias dificuldades nestes assuntos.
 

Embora neopagãos geralmente aceitem novas idéias e mudanças de boa vontade, desafios às normas aceitas são sempre ameaçadoras. Portanto, aqueles que desafiam na Arte as idéias convencionais da polaridade masculino/feminino ou o culto de equilíbrio entre a Deusa e o Deus são compreendidos mal ou vistos como uma ameaça.
 
 

A Arte Tradicional
 

Há muitas "seitas" diferentes dentro do paganismo tradicional. Embora cada um tenha diferentes rituais, deuses, focos, heranças e enfeites, todos têm princípios, estruturas e normas similares. Por exemplo, um princípio de um coven tradicional é o equilíbrio entre o Deus e a Deusa. A Deusa, a as mulheres que ela representa, são consideradas portadoras de aspectos "femininos", tais como fertilidade. Os homens e o Deus são associados a aspectos "masculinos", tais como a caça e o ciclo de morte/renascimento. Embora este estilo de culto realmente inclua e dê importância tanto aos homens quanto às mulheres, algumas feministas sentem que ele é uma perpetuação das - e pode levar à novos caminhos de continuísmo - regras patriarcais. Muitos covens tradicionais insistem na polaridade masculino/feminino no coven, e especialmente para o Grande Rito. Isto, é claro, exclui gays e lésbicas fisicamente, e possivelmente metafisicamente (em termos de energia). Outro paradoxo da Arte tradicional é que embora seja anti-autoritária, há alguns líderes e professores nomeados (a Alta Sacerdotisa e o Alto Sacerdote) em cada coven. Freqüentemente, para ser considerada uma bruxa "de verdade", a pessoa precisa achar um coven, fazer um pedido de iniciação, sujeitar-se a um período de espera e galgar os três graus de iniciação. Então, e só então, esta pessoa pode começar o seu próprio coven.
 

Estes e outros aspectos da Arte tradicional são rejeitados pelos grupos diânicos e Radical Faeries. Esta é uma fonte de disputa e desentendimento entre tradicionalistas e os ramos mais "radicais" de paganismo. Muitas mulheres e homens dos grupos tradicionais estão preocupados pela rejeição resoluta de princípios, estruturas e normas, assim como por afirmações tais quais "... que as mulheres são bruxas pelo direito do fato de serem mulheres..." (Adler, p.178). Bruxas diânicas também trazem a Arte ao público por misturarem política com religião. Nem sempre isto é aceitável para a Arte tradicional. As políticas separatistas de algumas feministas e covens gays também são ameaçadoras às bruxas e aos pagãos tradicionais. Mas estas diferenças externas são justamente isto: externas. As reais "ameaças" à bruxaria e ao neopaganismo convencionais são as revoluções no pensamento, idéias e simbolismo que estão tomando lugar em covens feministas e gays. Estes grupos estão redefinindo os conceitos de matriarcado, poder, diversão, crescimento, polaridade, Deusa, Deus, política, masculinidade, feminilidade e ritual. Essencialmente, o que eles estão mudando são os seus conceitos de gênero sexual e seus papéis. Ao achar novos caminhos de ver e utilizar o poder, o arquétipo e a polaridades destes grupos estão mudando radicalmente as suas ações, consciência e subconsciente. Estas são as pessoas que podem realmente revolucionar a nossa sociedade e os papéis dos gêneros sexuais nela.
 
 
 

A Espiritualidade Feminista
 

"Obviamente há uma ênfase excessiva em certas coisas, mas a minha hipótese é que quando a balança pesou demais para um lado, é necessário pesar muito o outro lado." Mary Ritter Beard.
 

A espiritualidade feminista começou do movimento feminista dos anos 70 e daqueles que dentro deste movimento estavam insatisfeitos com as idéias e a religião patriarcais. Mulheres estão começando a criar a sua própria religião. "As mulheres hoje estão descobrindo que a espiritualidade é autêntica quando é intrinsicamente subjetiva, quando é trazida para fora, penadamente do útero da sua própria experiência" (Kolbenschlag, p.160). As mulheres estão começando a olhar as suas próprias experiências e sensações (intuição) e a confiar nelas. É importante para as mulheres validar e confiar nas suas experiências e sensações pessoais antes de confiar em si mesmas. A espiritualidade que vem de dentro está tomando o lugar do dogma que vem de fora. Algumas mulheres que estão explorando a sua espiritualidade participaram de grupos de expansão da consciência aonde elas pela primeira vez foram permitidas a examinar e validar as suas sensações e experiências. Elas começaram a olhar para as idéias defeituosas do patriarcado (tais como a divisão entre o espírito e o corpo, a racionalidade linerar e o "poder sobre") e a achar alternativas a esta idéias (vidas políticas e espirituais interdependentes, pensamento [intuitivo] não-linear e poder-de-dentro).
 

Algumas revistas feministas começaram a olhar para a idéia de religar espiritualidade e política. Country Woman dedicou uma edição (Abril de 1974) ao assunto:
 

Para mulheres "políticas", "espiritual" significa instituições e filosofias que têm imobilizado mudanças práticas e canalizados as energias das mulheres para servir a outros em seu próprio detrimento. Para mulheres "espirituais", "política" significa instituições e filosofias que negam a unidade das pessoas e que têm canalizado a criatividade das mulheres para destrui-las e fazê-las lutar umas contra as outras... Desde que as mulheres começaram a notar as diferentes partes das suas experiências e a categorizá-las em termos usados pela cultura patriarcal, elas começaram a suspeitar umas das outras. (Adler, p.1985).
 

Mas muitas pessoas desejam e gravitam em torno da espiritualidade e as feministas não são exceção. As mulheres que precisam de uma espiritualidade feminista começaram a olhar para as religiões e arquétipos da Deusa. É claro, elas acharam a bruxaria. Como um das únicas religiões que dão um papel igual, se não superior, a bruxaria logo foi reinvidicada pelas feministas como sua propriedade.
 

Em 1968, WITCH, "um grupo de mulheres que estão engajadas em ações de protesto políticas e surrealistas" (Adler, p.179), distribuíram panfletos que usavam o arquétipo da bruxa. Elas afirmavam que uma bruxa era uma mulher que fazia as suas próprias regras, que tirava o poder de si mesma e que lutava pelas suas irmãs (Adler, p.206-207). Este grupo via as mulehres como bruxas inatas e as bruxas como as primeiras revolucionárias e resistentes. Desta forma, feministas são capazes de reconciliar política com espiritualidade. Isto era de grande importância para muitas novas bruxas feministas. Um revista feminista chamada Quest fez uma edição especial dedicada à espiritualidade (Volume 1, #4, Primavera de 1975) para publicar um artigo de Judy Davis e Juanita Weaver que dizia:
 

A assim chamada divisão entre feminista cultural e feminismo político é um resultado debilitante na nossa opressão. Ela vem da noção patriarcal de que o espiritual e o intelectual operam em reinos separados. Negar o espiritual ao fazer política ou cultivar o espiritual às custas do bem-estar político ou econômico é continuar o jogo patriarcal. (Adler, p.185).
 

Feministas são capazes de praticar bruxaria (uma religião de poucos aspectos históricos de opressão patriarcal sobre as mulheres), bem como de continuar a sua própria vida política. Desta forma, ambas as coisas são capazes de alimentar um à outra: a bruxaria dá às mulheres força em suas lutas políticas e o ativismo político dá à bruxaria uma voz no foro público. Zsuzsanna Budapest, que começou a sua vida na América exilada da Hungria, achaou que a sua herança de bruxaria poderia ser unida à sua nova visão de trabalho político como feminista.
 

Zsuszanna é agora um membro da Arte feminista e autora de numerosos livros e artigos. Ela acredita que a religião é "a política suprema." "Religião está aonde você pode alcançar as pessoas em seus mistérios, nas partes dos seus seres que foram negligenciadas, mas que são tão importantes e dolorosas..." (Adler, p.188). Esta é uma afirmação inteligente. O que podem ser melhor do que mudar uma pessoa e o seu futuro senão através do nível subconsciente do simbolismo religioso?
 

No livro de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, os personagens principais, Viviane e Morgaine, combinam a sua religião com o seu envolvimento político. A Antiga Religião da terra dava importância às mulheres assim como aos homens e não subjugava um ao outro. Se o Grande Rei não jurava lealdade à Antiga Religião (e ao Sacerdote e à Sacerdotisa de Avalon), a religião iria morrer. Uma vez que a política do reinado teria um efeito direto sobre a sua religião e suas vidas, Morgaine e Viviane estavam determinadas a influenciar o Grande Rei. Desta forma, elas podiam assegurar a sobrevivência da religião e do velho modo de vida.
 

Muitas bruxas feministas vêem o matriarcado como uma parte importante do seu passado e do seu futuro. Muitos acadêmicos irão debater a existência de qualquer matriarcado passado. Para as bruxas feministas, a questão não é se houve realmente verdadeiros matriarcados, mas como a sociedade seria diferente se "princípios femininos" fossem valorizados. Embora o significado literal de "matriarcado" seja "governo feito pelas mães", a sua tradução literal tem muito do mesmo significado de "governo feito pelos pais", que é a tradução literal de "patriarcado". Na sociedade atual, quando uma feminista fala em patriarcado ela não quer dizer um governo benigno de homens. A sua conotação de patriarcado é a subjugação das mulheres e a repressão de tudo o que é feminino. As bruxas feministas freqüentemente vêem o conceito de matriarcado como o fortalecimento das mulheres e a valorização dos princípios femininos. Elas perguntam a si mesmas seria sentir estar no poder e como o poder pode ser usado diferentemente da forma como é usado no patriarcado.
 

As mulheres que estão dentro de grupos exclusivamente femininos estão começando a achar em primeira mão como o sistema feminino trabalha e como pode ser empregado como uma alternativa ao sistema masculino. As mulheres começando a formar comunidades igualitárias que operam muito diferentemente daquilo que Riane Eisler chama de sistemas androcráticos em seu livro "The Chalice and the Blade" (N.T.: O Cálice e a Espada). De fato, os postulados feitos por Eisler em seu livro sobre sociedades igualitárias e como elas funcionam são apoiados pelas observações de outras escritoras feministas sobre sistemas (ideais) de mulheres. E as bruxas feministas estão começando a utilizar estes sistemas em seus grupos e covens.
 

Bruxas feministas também utilizam o mais poderoso instrumenyo na sua busca pela reivindicação do espírito feminino: o arquétipo. O arquétipo é o aspecto mais potente de qualquer religião, seja o arquétipo de Eva condenando toda a humanidade ao exílio do Paraíso ou Diana criando os céus e levando Lúcifer para a Terra. Através de imagens poderosas da Deusa, as mulheres são capazes de fortalecer e mudar as suas próprias imagens. É claro, isto alcançado através do uso do mito. As bruxas feministas querem ir além das simples imagens da Deusa como uma mãe benevolente e que cuida dos seus filhos, como proposto pela Arte tradicional. As bruxas feministas abraçam todos os aspectos da Deusa. A Deusa não é vista apenas como a criadora do universo, mas também como destruidora, pois no fundo todos os atos de criação são atos de destruição. Ela vem de muitas culturas. Ela às vezes é representada como o sol (luz) "ativo", ao invés da lua (sombra) passiva. Ela é a guerreira que protege o Seu povo; Ela é Erishkegal bem como Inanna. Ela é Kali. Ela é Vênus. Ela é Freya. Todas as criaturas são Suas e a Terra é o Seu corpo. Suas energias estão ao nosso redor na forma de rios, raios e vento, criando e destruindo constantemente. Budapest claramente articula sobre a necessidade por uma deidade feminina em seu The Holy Book of Women's Mysteries (N.T.: O Livro Sagrado dos Mistérios Femininos):
 

... um deus masculino auto-criado que não tem mãe é um conceito totalmente insustentável. É, para dizer o mínimo, não sobrenatural, mas meramente não-natural. Nada na natureza se parece tal absurdo. Tudo, mesmo uma estrela que surge em algum lugar, toda criatura tem uma força-mãe. Obviamente, negar a maternidade é negar as mulheres. (p.3).
 

Logicamente, o raciocínio de Budapest funciona. Mas não é a lógica que leva as mulheres a acharem-se nas antigas mitologias. Os arquétipos da Deusa fortalecem as mulheres e as inspiram a se tornarem deusas (a trabalharem rumo ao seu potencial total).
 

Entretanto, há uma tênue linha antre arquétipo e estereótipo. Algumas bruxas feministas sentem que a Arte tradicional colocam ênfase demais sobre as mulheres como mães/criadoras. Elas perguntam a si mesmas até o­nde isto pode se aproximar das atitudes Kirche, Kürche, Kinder da Alemanha nazista se isto não for posto em cheque. Por isto, as bruxas feministas tentam tirar a ênfase di aspecto do nascimento. Elas freqüentemente reclamam os seus direitos reprodutivos na forma de criação de idéias, grupos, organizações etc. Em uma crítica à espiritualidade feminista, Sarah Hoagland diz que na pressa de reivindicar o espírito "feminino", muitas feministas têm entrado em uma noção debilitante e patriarcal. Ela diz:
 

A maternidade, para muitos, é o paradigma da criatividade e do poder das mulheres, quer a maternidade tome a forma de educar crianças (meninos, meninas ou homens) ou salvar o mundo e ser o esteio da civilização... (mas) a verdadeira maternidade não simplesmente uma questão de proteger e cuidar de toda a vida... a escolha de ser mãe podem envolver a escolha de destruir forças destrutivas... uma mãe, como outros, podem ter que matar para sobreviver (p.96). Se a imagem benevolente da mãe está ou não presente na comunidade feminista pagã, como Hoagland sugere, é difícil de dizer. Apesar disso, isto é uma crítica que toda a comunidade pagão deveria ter em mente.
 

Nesta nossa época, muitos indivíduos estão lidando com questões desta natureza. Na nossa sociedade em mutação, com seus avanços tecnológicos e separação da natureza, qual é o papel dos deuses? Quais devem ser os seus aspectos? Como nós podemos mudar os arquétipos? Uma autora que freqüentemente abordar estas questões é Starhawk. Starhawk é uma bruxa praticante cujo coven de mulheres e homens trabalha nos princípios da bruxaria feminista. Uma vez que homens feministas em seu coven tendem a escolher não se identificar com os papéis tradicionais para o homem, é mais fácil para as mulheres do coven verem a si mesmas em papéis não tradicionalmente aceitos para mulheres e vice-versa. Desta forma, como autora, Starhawk pode descrever em primeira mão as mudanças de papéis das mulheres e dos homens na Arte.
 

Mas muitos covens feministas não trabalham com homens. Nem eles se importam com a polaridade masculino/feminino ou, até mesmo, com a invocação e o culto do Deus. Esta é uma fonte de muita irritação para a Arte tradicional. Covens feministas geralmente trabalham de forma muito diferente dos covens tradicionais. Geralmente não há uma Alta Sacerdotisa do coven; as mulheres revezam o papel de liderar o coven em seus trabalhos e rituais. Quem quer que conheça melhor e esteja mais familiarizada com um trabalho mágico ou ritual lidera o grupo naquela ocasião. Os covens feministas criam os seus próprios exercícios e rituais. Eles não trabalham com um "Livro das Sombras" padrão ou livro de segredos mágicos. Eles freqüentemente emprestam ou inventam seus rituais, feitiços, cantos e exercícios. Há uma grande quantidade de espontaneidade em um coven feminista.
 

O separatismo de covens feministas, combinados com a rejeição de normas da arte e a imagem popular de feministas como pessoas que odeiam os homens, criou muito atrito entre as feministas e os tradicionais. Os anos 70 e 80 viram um aumento de cartas e artigos reacionários em jornais e periódicos neopagãos. Bruxas feministas foram taxadas de "sexistas" e "invejosas" (Adler, p.211). Muitos artigos pediam menos ênfase na Deusa e no Seu culto exclusivo. Alguns destes artigos foram escritos por mulheres. Hoje, muito desta controvérsia já morreu. Eu acredito, entretanto, que muitos pagãos (especialmente os mais jovens) ainda são afetados pela imagem que a mídia criou das feministas e, até certo ponto, a aceitam. O público em geral ainda compra a imagem que a mída criou das feministas. Em alguns pagãos, infelizmente, ainda são crédulos o suficiente para engolir isto.
 

Não importando se a Arte tradicional quer ou não ouvir e aprender, os covens feministas estão minando as noções patriarcais de gênero sexuais e seus papéis. Eles estão começando nas raízes do problema. As práticas separatistas permitem as mulheres a trabalharem para as mulheres e com outras mulheres. Eles se focam em assuntos femininos e cada uma tem uma parte igual no seu coven. Trabalhar em grupo que não é hierárquico dá às mulheres a chance de experimentar o poder-de-dentro, ao invés do poder-sobre. Elas ganham uma grande quantidade de poder ao focarem-se na Deusa e estudando os Seus novos arquétipos. Desta maneira, elas criam novas imagens para si mesmas e de si mesmas. Ao trabalhar sem a polaridade masculino/feminino elas têm invalidado décadas de ensinamentos de tão famosos hierofantes como Janet e Stewart Farrar e Gerald Gardner. Ela têm reconciliado espírito com matéria. Elas tem ouvido a "temerosa" intuição e nem sempre são "lógicas".
 

Estas mulheres têm abandonado os conceitos mais básicos sobre o que as mulheres "são". Elas não têm se tornado histéricas, profundamente infelizes ou inférteis. Elas têm rejeitado o modelo dominador da nossa sociedade. Ainda assim, elas não tem mergulhado no caos que supostamente reina supremo quando o sistema masculino não é usado.
 
 

Radical Faeries
 

"Está na moda hoje encorajar os homens a serem sensíveis. Entretanto, este encorajamento é parcialmente lembra a tentativa de fazer um homem aleijado a correr." Herb Goldberg, The Hazards of Being Male.
 

Se as histórias e tradições da bruxaria forem esquecidas e difamadas, então a espiritualidade gay em todo lugar seria praticamente erradicada. Em uma tentativa de reivindicar a sua justa posição de respeito na espiritualidade pagã, os Radical Faeries começaram quietamente a reunir energia em 1978. No Sudoeste, várias convenções espirituais do tema paganismo e da contra-cultura gay eram as sementes do que é hoje um ramo muito necessário do paganismo.
 

Os gays, embora a cultura atual tente negá-lo, existiram em todas as raças, religiões e sociedades do mundo. Uma cultura em que os gays e as lésbicas eram honrados e respeitados eram as tribos dos nativos americanos. Uma autora que tem nos suprido com uma grande quantidade de informação sobre gays e seus papéis nestas tribos é Paula Gunn Allen. Entre os seus muitos livros, The Sacred Hoop é um bom livro falando de feminismo, cultura nativo americana e gays dentro de muitas tribos. Allen cita a autora Judy Grahn (Another Mother Tongue: Gay Words Gay Worlds), que, por sua vez, citou a antropóloga Sue Ellen Jacobs em um afigura de "... 88 tribos cujos atributos culturais registrados incluem referências à homossexualidade, com vinte destas incluindo referências específicas ao lesbianismo" (p. 197). o­nze tribos negaram (para forasteiros) qualquer prática de homossexualidade. Allen afirma que isto "... indica a presença de lesbianismo e homossexualidade em todas as áreas da América do Norte" (p. 197). Diferentes tribos nativo americanas tinham muitos nomes diferentes para gays e lésbicas. Mas a palavra que as pessoas mais conhecem e usam hoje é berdache, significando "homem vestido de mulher" (Este termo tem sido mal utilizado tanto para lésbicas quanto para homens gays das tribos. É uma palavra francesa que veio de uma palavra árabe para um garoto que fosse escravo sexual ou para um garoto de programa. Infelizmente, o nome pegou.
 

Radical Faeries estão hoje trabalhando para ganhar o status e a honra que um dia foi tida pelos berdaches. Por causa da opressiva influência dos colonizadores cristãos e da falta de linguagens escritas dos nativo americanos, os papéis e vidas das lésbicas e dos gays dentro das tribos é difícil de averiguar. Histórias de xamãs que se vestiam de mulheres e faziam o trabalho de mulheres não são incomuns. Nem é incomum ler sobre uma garota que abdicou do seu sexo físico, vestiu-se como um homem, tomou o nome de um homem e fez o trabalho de um homem. Ela freqüentemente foi considerada pela tribo como portadora de grandes poderes. Nós só podemos assumir que quando a história diz que uma mulher tomava uma "esposa", o seu relacionamento era conjugal tanto quanto emocional. As pessoas que mudavam de sexo eram venerados pelos nativo americanos. Muitos xamãs e curandeiros eram berdaches. Eles eram as pessoas sábias da tribo: aqueles que tinham visões, falavam com os espíritos e sabiam interpretar os sonhos. Hoje, Radical Faeries estão tentando reivindicar o seu passado berdache.
 

Há poucos grupos ou organizações que trabalham com as necessidades espirituais da comunidade gay; alguns indivíduos na comunidade gay à vezes acham que viver a experiência gay não é o que eles esperavam que fosse. Margot Adler entrevistou Jody, um membro dos Radical Faeries que sentia que a cultura gay "... era uma paródia opressiva da cultura heterossexual. Tomava parte principalmente em bares, aonde a música é alta e as pessoas não são encorajadas a falar ou formar ligações ou cuidar uns dos outros" (Adler, p.341).
 

Muitos homens têm achado uma irmandade de outras pessas com as mesmas necessidades espirituais em grupos de Radical Faeries. Eles sentem orgulho em serem diferentes das pessoas "hétero"; eles acreditam que a habilidade de mudar os papéis sexuais pode tornar o "andar entre os mundos" mais fácil. Eles acreditam que a sua "energia homossexual" é um ingrediente principal em trabalhos mágicos. Os Radical Faeries não procuram se assemelhar à comunidade hétero dizendo que a única diferença entre eles e os heterossexuais é o que eles fazem na cama. Eles recuram essa assimilação, pois traz perda de comunidade e inspiração. Eles acreditam que a única coisa que eles têm em comum é o que eles fazem na cama (Adler, p.344).
 

Radical Faeries também fazem coisas muito diferentes das que a comunidade pagã tradicional faz. Eles não estão interessados em rituais formais; a maioria dos seus rituais é completamente espontâneo. Eles são anarquistas públicos que utilizam o humor e o surrealismo para chocar as pessoas. Eles freqüentemente levam a sua anarquia para os festivais e encontros pagãos. Eles arruinaram um ritual formal em um encontro pagão ao irem para lá gritando "Atenção! Aqui a espontaneidade é proibida! Nós somos a polícia de espontaneidade!" (Adler, p.346). Eles tem levado a "dança do chá" da comunidade gay aos encontros pagãos - o que parece muito fora de lugar em uma programação fixa. Homens (gays e héteros) vestem roupas de mulher e dançam música popular. Embora pareça tolo, é freqüentemente bem sucedido. Eles não controlam as suas experi6encias ou tentam censurar as energias que as suas experiências trazem. Eles acreditam que o controle de energia e das sensações é um grande problema da sociedade e o caminho para remediar isto é através da espontaneidade e da brincadeira.
 

Quando gays tornam-se uma comunidade religiosa para direcionamento espiritual, eles freqüentemente não são bem-vindos. Vergonhosamente, isto às vezes também é verdade na comunidade pagã. Por causa desta pesada confiança na polaridade física masculino/feminino, tradicionalistas na comunidade pagã freqüentemente não sabem o que fazer com gays e qual é o seu lugar no paganismo. O livro The Complete Art of Witchcraft (1975), de Sybil Leek, inclui um capítilo sobre "O Lugar do Homossexual na Bruxaria". Este capítulo cai no sexismo (em mais de um sentido), na inveja e na auto-importância. Em A Witches Bible Compleat, Janet e Stewart Farrar incluem uma pequena seção em seu livro (Part II, p.170), dizendo-nos quão "absolutamente heterossexuais" e como, embora eles tenham amigos gays, eles não acreditam que covens gays possam funcionar porque a wicca foi construída sobre um "masculinidade e feminilidade natural da mente, do corpo e do espírito." O livro Persuasions of the Witch's Craft (1989), por T.M. Luhrmann, é um livro ao estilo do Drawing Down the Moon, mas o seu tema está restrito aos bruxos ingleses. O autor aponta a evidência do conservadorismo destes bruxos em suas atittudes a respeito de considerar a permissão de gays em seus covens. Um indivíduo iluminado (que eu tenho certeza que teve muitas experiências em primeira-mão deste tipo!) disse "... você não pode trabalhar magicamente com um homossexual. Homossexuais simplesmente não criam a corrente." (p.64).
 
 

Não é apenas a atitude e a anarquia dos Radical Faeries (ou de qualquer outro grupo gay da Arte) que incomodam as pessoas; é a sua própria presença. Starhawk escreve em Dreaming the Dark:
 

Ver homens que deliberadamente abraçam as características associadas às mulheres (suavidade, tolice, vontade de cuidar dos outros, vulnerabilidade) pode ser terríveis para outros homem porque tanto da identidade masculina na cultura alienada depende da diferença deles com as mulheres, que é definida negativamente. Ainda assim, além do medo pode haver poder para redefinir o self masculino positivamente como uma todo enraizado, não como uma parte separada. (p. 142).
 

Esta é a chave de porque a comunidade pagã tradicional sente-se perturbada por homens gays em sua religião. Estes homens estão quebrando os papéis sexuais e jogando-os no lixo. Como as mulheres em covens separatistas feministas, eles homens têm rejeitado os papéis tradicionais designados pela sociedade; ambos estão se movendo em território desconhecido. O que eles irão achar lá? O que eles trarão de lá? Em que sentido isto irá alterar a comunidade pagã ou possivelmente a cultura popular? O que será abandonado e o que será ganho? Estas são as perguntas que a comunidade pagã deveria estar perguntando a si mesma. São perguntas ameaçadoras porque muitas das respostas podem ser radicais. Se nós começarmos a escutar estas pessoas - aqueles que estão vivendo fora de todas as estruturas, dos papéis e das normas que nós fomos ensinados - e começar a viver as nossas vidas em liberdade e harmonia, nós iremos realizar um dos maiores experimentos já feitos até hoje. Podemos viver sem hierarquia? Hierarquia é algo mais do que uma sociedade dominadora? Como nós podemos funcionar sem papéis sexuais?
 
 

Por cinco mil anos, os princípios e as moralidades de um mundo androcrático têm sido o nosso inconsciente coletivo. O nosso subconsciente se confunde quando começamos a considerar alternativas. Aquela voz invejosa e sexista fala de dentro de nós quando ela é ameaçada por novas escolhas. A comunidade pagã - os revolucionários originais e os resistentes - é um lugar primário aonde as "táticas de guerrilhas" dos "rebeldes" feministas e gays podem formar raízes e sobreviver. A Arte é um solo fértil para as sementes do dissentimento.
 

Jennifer Homan
(jennifer@janeroeisdead.com)


 


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