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A Onda Mística
O surgimento dos magos madernos

 
 
Temos assistido, nos últimos anos, a uma marcante popularização do ocultismo. Nunca, em tempo algum da história, houve uma tal gama de atividades e informações concernentes aos aspectos da existência humana supostamente ligados a dimensão sobrenatural. Surgem, abundantemente, explicações respaldadas em uma atenção orientada para uma causalidade não lógica e não material. 

Vemos, todos os dias, aumentar o número de livros, cursos, reportagens e relatos, que dizem desta atenção para com o oculto. Mais que nunca, o homem busca explicar (ou meramente entender) o indizível, o inimaginável, o incognoscível, tentando, por vezes desesperadamente, dar um sentido outro a cotidianeidade de sua existência. 

Trata-se, sem dúvida, de um fenômeno localizado nos grandes centros urbanos, onde, ao que parece, a vida tornou-se excessivamente rotineira, formal e racionalizada. O grupo urbano, talvez devido a própria elaboração de uma ideologia individualista, tão bem caracterizada por DUMONT (1985), parece precisar da crença no oculto e em seus correlatos para poder sobreviver as agruras de um viver massificador, coisificador e racionalizador. 

Neste trabalho, tentaremos apontar algumas das características desta busca do oculto no Brasil, resgatando para tanto o pensamento de alguns autores que analisaram a sociedade moderna e estipularam uma explicação específica para a mesma. Trataremos, em especial, de um dos correlatos desta busca, o fenômeno da magia e dos profissionais que a exercem (os magos), tentando entendê-lo dentro de uma ótica antropológica. 
 

A Ideologia do Individualismo na Sociedade Moderna 

Nossa cultura é uma forma particular de humanidade, historicamente determinada, onde a unidade do gênero humano é postulada e sempre mais reforçada pelas práticas científicas totalizadoras. A visão do antropólogo reflete, talvez mais que as demais ciências, esta postura diante da vida humana. Temos, concomitantemente, a compreensão da singularidade de cada grupo social enquanto totalidade em mudança, e a perspectiva globalizadora, universalista. 

Esta nossa humanidade, em contraposição as sociedades antigas (melhor dizer, holistas), se caracteriza pela valorização do indivíduo enquanto sujeito livre para escolher, separado da natureza, a relação entre representações sociais e ação individual. O homem moderno portanto, restringe a dimensão de valor ao espírito, ao sentimento e à volição dos indivíduos, substituindo um cosmo hierárquico (pertinente as sociedades holistas) por um mundo físico homogêneo, onde tudo pode ser quantificado. 

Porém, mesmo sendo o indivíduo a fonte de todo o valor, podemos verificar uma determinada legitimação pelo grupo desta característica da sociedade moderna. A valorização do indivíduo é sempre realizada no e pelo grupo, não existindo um individualismo sem um grupo que o legitime. Segundo VELHO (1981), deveríamos sempre contextualizar a ideologia individualista de que falamos, posto que ela sempre depende do grupo que a consolida. À antropologia, advogando o princípio de integração, caberia estabelecer em cada caso, segundo sua configuração própria, sob que formas e dentro de que limites se justificaria uma intervenção do universalismo moderno. 

É ainda VELHO (idem), por sinal, que nos alerta para a característica peculiar do contexto social brasileiro, onde nunca houve homogeneidade absoluta de um ideário holista ou individualista. Houve e há, segundo o autor, certo predomínio em diferentes momentos de um sistema ou de outro, ou mesmo uma combinação de ambos, que gera, na prática, ambigüidades no experienciar cotidiano. 

A realidade torna-se então, fragmentada, dividida em múltiplos espaços, províncias de significado (cf. SCHUTZ, 1979) que se interpenetram e trazem dificuldades para os sujeitos, em termos de dotá-los de uma compreensão mais abrangente de sua vida social. Ora somos julgados indivíduos livres para optar por nossos caminhos, ora somos alertados para as diretrizes de um ou outro grupo a que estejamos vinculados. 

No primeiro caso, indivíduos livres constituiriam uma ética social moderno, apoiada em uma negociação da realidade travada por indivíduos-cidadãos que poderiam organizar-se e expressar-se politicamente. No segundo, uma (ou várias) ordem moral dominante, apoiada em explicações cósmicas ou religiosas (ou em ambas), justificaria a realidade vivida. Em verdade, nenhum dos dois modelos se realiza plenamente, vivendo em curiosas simbiose, muitas vezes parasitária, onde um anula as qualidades do outro e dão origem a existência do individualismo cínico e das totalizações apressadas. 

Temos então, o caos de sentido, onde não existem leis nem regras, e é o indivíduo, isolado, que vai reger sua conduta em todos os níveis da existência, procurando encontrar as formas explicativas que mais o favoreçam em seu projeto particular. Criam-se, a partir deste momento, condições para a emergência do fenômeno do “narcisismo em tempos sombrios”, tão bem caracterizado por COSTA (1988), veiculando uma ideologia tipicamente moderna, como veremos a seguir. 
 

O Eu Privado (de si mesmo?) 

Richard SENNETT (1988), parece-nos oferecer uma compreensão acertada do atual estado das sociedades modernas. Consegue-o a partir do esboço que faz da superação do moderno, que é realizada pela implantação de uma ideologia específica da pós-modernidade: a ideologia da intimidade. 

Para ele, o “eu” de cada pessoa, nas sociedades por ele estudadas (Paris e Londres), tornou-se o seu próprio fardo. E daí, conhecer-se a si mesmo tornou-se antes uma finalidade do que um meio através do qual se conhece o mundo. 

Mesmo diante da ausência de dados comprobatórios, pensamos ser possível entrever certos indícios no contexto social brasileiro, que dizem de uma apreensão da sociedade neste sentido, ou seja, tal qual um grande sistema psíquico, onde o todo social é avaliado pelo significado que tem para a subjetividade de seus componentes. 

É óbvio que falamos aqui do contexto social urbano, posto que é nele que apresentam-se mais pungentemente as contradições entre os diferentes ideários presentes em nossa sociedade. 

O amor, por exemplo, é predominantemente definido mais em função dos ideais de intimidade, que como uma ação social. A sexualidade não possui, aos olhos dos modernos, uma significação social, dizendo antes da expressão da personalidade individual. Passamos a crer mais em estados emocionais, forças psicológicas, que em ações emocionais. Em outro trabalho, VELHO (1986) investiga como isso se dá entre os membros de camadas médias superiores brasileiras, apontando a estreita ligação coletada nos relatos, entre a paixão e crenças advindas de uma ideologia individualista. 

Trata-se do desejo de se auto-revelar via a descoberta do próprio prazer, além de se autenticar enquanto ator social por meio de qualidades pessoais. SENNETT (1988), postula que esta preocupação com a legitimidade do Eu desperta os mais corrosivos elementos da ética protestante, em uma cultura não mais religiosa e alheia à crença de que a riqueza material é uma forma de capital moral. Daí, ele ter atribuído à sociedade moderna a capacidade de originar um certo puritanismo característico da ética protestante, onde a obsessão com a adequação, com o “ser bom o bastante”, se imbricam com este desejo de autenticação do Eu, à revelia do grupo. 

Há, igualmente, a ausência de regras de sociabilidade, ora tudo devendo ser revelado, ora tudo devendo ser oculto na privacidade do Eu. A experiência pública não é mais relacionada à formação da ordem social, mas à formação da personalidade. Graças a esta ascensão de um código do imanente, onde tudo pode ter importância na compreensão dos fatos da vida social, tornou-se paulatinamente mais fraca a distinção entre o sujeito que apreende e o apreendido, o interior e o exterior, o sujeito e o objeto. Não existiria portanto, um limite entre aquilo que se relaciona com as experiências pessoais e aquilo que é impessoal. 

Em outro nível, o espaço social moderno permitiria, para SENNETT, o desaparecimento da linha divisória entre sentimento particular e demonstração pública deste sentimento, havendo cotidianamente a exposição involuntária da emoção. O artista surge como a personalidade vigorosa que todos almejam ser e temem se tornar, gerando o predomínio da passividade e do silêncio nos espaços públicos, sem outro significado que não o de passagem. 

Acreditamos que todas estas características, do homem e da comunidade moderna, possibilitam muitas vezes a apropriação de determinados modos de ser das sociedades tradicionais (holistas), transpondo-os para uma ótica fundamentalmente individualista. Tal parece-nos ser o caso da magia, forma de ser do homem das sociedades holistas, a partir da qual ele naturaliza suas ações, sendo contudo, neste contexto social, algo que depende explicitamente da confirmação de seu grupo. 

Correndo o risco de começar este trabalho por onde pretendíamos terminá-lo, não podemos deixar de apontar desde já a resignificação que entrevemos na prática da magia pelos modernos. Estes parecem literalmente tê-la subtraído de um ritual grupal para vinculá-la a uma atividade individual. Por agora, vejamos outro elemento da conjuntura moderna que talvez possa lançar alguma luz sobre o fenômeno em apreço. 
 

A Irrupção do Irracionalismo 

ROUANET (1989), apresenta-nos um país onde a presença da razão crítica quanto aos fatos sociais anda cada vez mais desvalorizada. De fato, este autor vai demonstrar como os sucessivos regimes autoritários, lançando mão de uma argumentação tecnocrática, em nome de uma razão sistêmica, global e maciça, pouco a pouco solaparam as bases de uma crítica racional do mundo vivido e não permitiram a emergência de razões alternativas. 

Se o modelo político e econômico implantado no país representava a razão, para contestá-lo, somente abolindo a própria razão. Tal parece ter sido, para ROUANET, a causa da paulatina adoção de uma certa irracionalidade na conduta e no discurso (quando existe) daqueles que lutavam e lutam por uma sociedade diversa daquela representada pelos regimes autoritários. 

Dentro deste contexto, a possibilidade crítica desaparece na progressiva expulsão das humanidades do preparo dos homens, a partir da premissa de que razão e poder estão intrinsecamente ligados. Os argumentos (quando os há), contaminados pelo irracionalismo, se dissociam da análise objetiva da realidade e passam a provir de reações emocionais e da mera repetição de objetivos arcaicos. 

A razão passa a ser tomada como inimiga da vida, supressora da criatividade, da arte, do desejo, e justificadora do poder dos tecnocratas. A razão tecnocrática parece sufocar a prática, e a prática tem sua verdade imanente, dispensando teorias que a respaldem. 

Contudo, no entendimento de ROUANET, o que existe de fato é uma confusão entre dois modos de conceber a racionalidade. Existe, é claro, a razão apontada como castradora dos sentidos, da inovação, que ele denomina de razão sistêmica ou tecnocrática. Mas existe igualmente a outra razão (ou outras razões), aquela que é capaz de transformar a prática, que usa os conhecimentos das humanidades para criticizar as próprias condições geradoras dos valores e normas sociais costumeiramente adotados. 

Esta outra razão, que fecundaria a vida em comunidade, é por ele chamada de comunicativa, posto que seria realizada em um processo consensual, o qual incluiria o trabalho do conceito, dissolvendo o existente, a naturalização do espaço social. Em oposição a louca razão dos tecnocratas, esta razão sábia identifica e critica a irracionalidade presente no próprio sujeito e nas instituições externas, bem com nas ideologias. 

O paulatino surgimento dos magos modernos, e sua grande aceitação em todas as camadas sociais, parece-nos guardar estreita ligação com os fatos precedentes. Porém, antes de analisarmos sua presença nas sociedades modernas, vejamos o que é este fenômeno de que tratamos como prioridade, qual seja, a magia, vista sob o prisma da Antropologia. 
 

Magia: a Primeira das Técnicas 

Diversos autores, entre eles Marshall SAHLINS e Gordon CHILDE, apresentam a magia como a primeira das técnicas humanas, a ancestral da moderna tecnologia científica. Percebem nela, em sua função última, uma tentativa de manipular o mundo físico, pelo uso de forças sobrenaturais ou divinas. 

Segundo MAUSS (1974), esta identidade de função entre magia e técnica revela mais que uma similitude exterior, uma e outra tendendo para os mesmos fins. A magia, para o etnólogo, visa o concreto, trabalha no sentido em trabalham todas as técnicas, é uma arte de fazer, pertencendo ao domínio da produção pura. Atua pelo uso de palavras e gestos tal qual as técnicas agem pelo trabalho físico. A magia, como as técnicas científicas, se individualiza e se especializa na perseguição de suas diversas finalidades. 

Este parentesco com as técnicas e com a ciência, evoca o mesmo propósito: a diminuição do esforço. A magia, como a ciência, dá forma e com isto fortalece os gestos. Para MAUSS, entretanto, a magia nada realiza concretamente, pois lida com imagens, como um opus inoperans do ponto de vista técnico. Por outro lado, ela pode ter sido, historicamente, o núcleo onde as técnicas puderam sobreviver e se desenvolverem, perdendo posteriormente seu caráter místico. 

Ambas, a ciência e a magia, dão extrema importância ao conhecimento, tendo nele um grande impulso. São, ambas, tesouros de idéias. Da alquimia à metalurgia e à esmaltação, da astrologia à astronomia, da utilização e sistematização de ervas e seres vivos à biologia e à química, da medicina mágica à medicina racional e positivista, foi longo o caminho da ciência e da magia e cheio de interelações. A magia, por certo, teria alimentado a ciência, e continuaria a fazê-lo em conceitos pouco claros, como por exemplo: força, causa, finalidade, substância e energia, que guardariam, segundo MAUSS, uma carga de misticismo e de poesia. 

LÉVI-STRAUSS (1989), por seu turno, demonstra como, do ponto de vista do agente, a ação mágica ou ritual representa uma adição à ordem objetiva do universo. Para quem a realiza, ela apresenta a mesma necessidade que o encadeamento das causas naturais. O agente apenas insere elos suplementares, naturalizando suas próprias ações, como se elas não emanassem dele. 

O homem é fisiomorfizado pela magia e, por outro lado, antropomorfiza o mundo via a religião, humanizando as leis naturais. De um lado, uma humanidade dotada de poderes sobrenaturais, crê em uma natureza mais além, ou em uma sobrenatureza. De outro, esta natureza toma emprestados os poderes desta super-humanidade. Na magia, homem e mundo passam a ser o espelho um do outro. 

Na modernidade, a técnica tem semelhante papel, sendo recíproca a perspectiva do espelhamento mútuo (lembremos, de passagem, o mito de Narciso). Nos grandes centros urbanos parecem existir sistemas de forças naturais que ultrapassam as faculdades humanas. Estes sistemas são humanizados pela intenção dos indivíduos, enquanto os homens são naturalizados pela energia física que mediatizam (cf. LÉVI-STRAUSS, 1989: 248). 

Após termos visto brevemente a posição de alguns mestres da disciplina antropológica, no que concerne ao fenômeno em apreço, passamos questionar mais diretamente como se realiza esta busca do oculto, representada aqui pela utilização da magia como sistema explicativo do universo, no contexto social brasileiro. 
 

A Fome pelo Sobrenatural 

Segundo recente artigo, publicado pela revista VEJA, em meados de 1990, uma verdadeira montanha de livros e práticas místicas e esotéricas se espalhou velozmente pelo Brasil nos últimos tempos. Desde a crença nos poderes mágicos dos cristais, nas cartas do Tarô, em sessões de energização, diversos elementos, entre os quais as pirâmides, o I Ching, os mapas astrais, a quiromancia e a astrologia, invadem todos os lares diariamente por intermédio da mídia eletrônica, ou são encontrados em cada esquina, seja em bancas de jornais e livrarias, na forma de revistas e livros especializados, seja pela proliferação desenfreada de consultórios alternativos e locais de difusão e práticas da chamada “nova era”. 

Quem não os usa, tenta manter acerca do assunto uma posição de respeitabilidade ou curiosidade diante dos demais, para não ser tachado de insensível, racionalista ou coisa pior. Está, então, formado o pacto da credibilidade, ou quando não, a atenção respeitosa, como relação a tudo que diga do oculto. 

Antigas práticas se mesclam aos mais recentes achados das ciências físicas e biológicas para, juntos, trazerem alguma esperança para os indivíduos que dela precisam. Nas palavras de Otávio VELHO (citado no artigo do periódico acima referido), é como se as pessoas tivessem muita dificuldade em se conformar com a banalidade cotidiana e sentissem necessidade de buscar novas formas de transcendência. Contudo, podemos agora tentar verificar que transcendência é esta, ou seja, o que é efetivamente buscado, quando se voltam para as explicações não-materiais e não-lógicas os indivíduos modernos. 

Lembremos que SENNETT atribuiu à sociedade moderna a característica de advogar o princípio da imanência, que encontramos novamente em ROUANET, quando nos fala da verdade imanente a uma prática desvinculada de qualquer teoria que a fundamente. Ambos nos parecem dizer, de modos diversos, do mesmo fenômeno: o moderno voltou-se para o próprio umbigo, descontextualizando suas ações e seu discurso, visando torná-lo perversamente universalizador. 

Poder-se-ía argumentar que este (re)surgimento dos magos talvez fornecesse uma alternativa a esta imersão em um código da imanência. Neste sentido, ele possibilitaria a adoção de um modo explicativo da existência humana que religaria o homem ao cosmo, captando a multiplexidade – tomando de empréstimo um conceito dumontiano – dos fenômenos. A magia na modernidade seria então, dotada de uma razão comunicativa. Contudo, ao nosso ver, não se trata disso, e esta aparição progressiva do interesse pelo ocultismo traduz uma outra forma de apropriação do mundo pela ideologia individualista. 

Como entender os ares modernos assumidos pelos novos magos e bruxos, senão recorrendo a argumentação acima colocada? Entendemos que a magia, ou o interesse pelo oculto em geral, foi capturada por outro significado, diverso daquele primeiro, que lhe pertence nas sociedades holistas. Este sentido lhe é sobreposto pela ideologia moderna, como tentaremos mostrar ao final deste texto, constituindo o trabalho do mito conforme a análise de Roland BARTHES (1970). 
 

A Retradução da Magia no Contexto da Sociedade Moderna 

Os novos magos, plenamente respaldados pela sociedade que os admira, trazem em comum os “ares modernos”, expressos na vestimenta que utilizam (roupas da moda, jeans) e na maneira de gerir suas vidas de acordo com os princípios do sistema capitalista; eles, afinal, vendem seu produto. 

Advogam a existência de energias ainda não detectadas pelas ciências positivistas, seja de planetas, de sólidos, de outros seres vivos, de cores, de números, etc. Dizem lidar justamente com o controle destas energias, restabelecendo os fluxos normais da existência. 

São, ainda, iniciados em dimensões não acessíveis aos olhos da razão. Como eleitos à uma posição de conhecimento sobre a vida e a morte, a qual os homens comuns devem se ater e compreender, via a interpretação fornecida, para vir a reger melhor os caminhos de suas vidas. Têm um quê de não humanos ou para-humanos, que os torna fascinantes e temidos, profundamente respeitados por todos os homens civilizados... e sensíveis. Sua vida profissional, embora regida pelas normas do sistema econômico vigente, coloca-se à parte do comum dos mortais, lhes conferindo a autoridade que utilizam. 

O mago é um outro homem, após ter passado pela iniciação. Tudo nele se modifica a partir do momento em que cruza as fronteiras naturais e passa à uma outra dimensão, tornando-se assim, uma pessoa qualificada. É grande o número de seitas e associações, secretas ou não, que agrupam os adeptos da prática da magia. 

Porém, mesmo com tantas semelhanças com os mágicos de sociedades tradicionais ou holistas, cujas características foram tão bem descritas por Marcel MAUSS (1974: 40 a 45), os magos modernos não surgem e se perpetuam na mesma esfera ideológica que seus predecessores. De fato, eles encontram-se em uma esfera particular da humanidade, que tem características marcantemente diferentes das sociedades mais antigas, como já vimos anteriormente neste trabalho. 

Podemos supor que a magia, no contexto da modernidade, não funciona apenas como um sistema de manipulação objetiva do mundo natural, como parecem colocar os antropólogos aqui mencionados, com relação as sociedades tradicionais. Ao que nos consta, nestas últimas, o papel social do mago precedia o do indivíduo como valor, sendo ele um membro do grupo, eficaz no e pelo grupo. Nas sociedades modernas, muito ao contrário, o indivíduo precede o mago, e o reduz à sua personalidade. 

Hoje, não temos magos, mas fulano de tal que é mago. Ou melhor, que pratica a magia, como qualquer indivíduo pode praticar, após ter sido devidamente instruído e iniciado, independente de sua tradição familiar ou grupal. 

O mago moderno pouco se atem as insígnias sagradas de antes, aos ritos predeterminados, antes podendo recorrer a uma enorme variedade de artefatos místicos comprados prontos em qualquer banca de jornal. Do vestuário ao manual místico de bolso, do mapa astral computadorizado à exposição dos astros televisivos de tal ou qual signo astrológico, tudo indica a apropriação do oculto pela ideologia individualista moderna. 

O indivíduo é a chave de todas as coisas. Os magos modernos veiculam esta máxima, e colocam nas mãos de todos os homens livres a capacidade de manipular o universo a seu bel-prazer, satisfazendo as necessidades narcísicas mais perversas. Totalizações apressadas não tardam a aparecer a cada instante, veiculando a vontade individual acima de tudo, o levar vantagem sobre os demais. 

O homem moderno, de fato, busca dominar o mundo caótico em que vive, manipulando-o magicamente, imaginariamente. A magia, como o amor moderno, que visa a descoberta de si mesmo, traz esta satisfação profunda de ter as respostas e poder se comportar da melhor forma possível. 

A melhor forma aliás, baseada numa ética do indivíduo valorizado. Daí que, na sociedade tecnocrática não há necessidade de um deus onipotente. Os homens, eles próprios, são deuses. Nos termos de NIETZSCHE, os homens mataram Deus para a satisfação de sua vontade de poder. Poder, diríamos, ser alguém diferenciado, acima de tudo e de todos, ante um mundo sem fronteiras entre privado e público, objetivo e subjetivo, universal e particular. 

Além de super-homens (deuses), os magos modernos são igualmente grandes artistas – um dos mais famosos já foi um compositor musical de sucesso! São pessoas excêntricas, polêmicas, que fogem ao viver comum dos mortais (não esqueçamos sua imortalidade!). São, neste sentido, a personalidade pública ideal, aqueles que sentem e revelam, por desígnios sobrenaturais, sua própria essência. 

Batendo de frente com o racionalismo, o mago moderno veicula certas mitologias do saudosismo e do exotismo. Contudo, ele retraduz, em sua prática, os conhecimentos mais diversos sobre o oculto, descontextualizando-os ou universalizando-os, tirando deles o fundamento religioso para torná-los acessíveis à modernidade. Torna-os estranhamente ambíguos, a um só tempo místicos, pois que lidam com o mundo sobrenatural, manipulando-o, e positivos, posto que técnicos e pragmáticos, lidando com a concretude. 

A sociedade moderna parece utilizar a magia como mais uma forma de encontrar o bem estar físico, mental e mesmo espiritual, partindo do desejo de melhorar a si mesmo, existente em cada indivíduo que a compõe. No percurso trilhado pelos magos modernos, encontramos então a revalorização do corpo, em oposição explícita a uma cultura do intelecto, e a revalorização da vida cotidiana, em busca de uma simplicidade já esquecida nas sociedades complexas. 

Em princípio, o mago moderno é um irracionalista, pois é pela recusa de uma sociedade do objeto, da objetividade, da objetivação e do anonimato, aos quais se impõe uma exigência de individualização, que ele regula sua prática. Segue-se daí, que ele não realiza a crítica do real, naturalizando-o mais que nunca, e tornando as ações humanas parte de uma cadeia cósmica que não deve ser rompida, sob o risco de alterar o desenho do universo. 

Em segundo lugar, coerente com os princípios da sociedade moderna, ele retraduz esta desrazão dos mágicos das perspectivas globalizantes e não lineares, em um contexto individualista e tecnocrático. O global é o indivíduo, pois que este é um microcosmo, onde todos os elementos essenciais do universo estão representados. 

É como esta ênfase no estrutural, no invariável, que sua prática, e a razão – louca! – que nela possa existir, pode ser vista como tecnocrática, no sentido utilizado por ROUANET. Ela irá consolidar a tradição e será conservadora, mesmo quando parecer ir de encontro ao estabelecido. Da mesma forma que a indústria cultural apropriou-se da contracultura, a ideologia individualista se apropria do despertar dos magos na modernidade. 

Curiosa situação surge ante nossos olhos, pois que o mago tecnocrático moderno vai justamente reforçar a desrazão dos indivíduos e do meio circundante, tornando-a digna e simbolizável (significativa) para os atores sociais. Eliminando o trabalho do conceito, ele exalta o indizível. Destruindo a criatividade e o desejo, ele será um defensor da tradição e mensageiro de um destino imutável. Substituíra então, a banalidade de um cotidiano massificador por outra banalidade mais atroz, a mistificação moderna do mundo vivido, tornando-o natural, paralisando o gesto e misturando realidades sociais distintas. 

Será nesta verdadeira simbiose, entre elementos da razão tecnocrática e do irracionalismo, que a magia realizada pelos magos modernos tornar-se-á um mito. 
 

Uma possível conclusão: 
O mito moderno da magia individualista 

Deixando de ser um sistema de manipulação objetiva do mundo natural, até mesmo pela naturalização da história, a magia parece ter se tornado, no mundo moderno, um sistema explicativo de caráter subjetivista, que reduz o universo ao indivíduo, tomado como valor, e atribui ao homem (fisiomorfizando-o) uma super-natureza. 

Cada indivíduo moderno parece seguir adiante com a consulta regular, ou não, aos apetrechos místicos ou esotéricos mais variados. Lê o destino no Tarô e no I Ching, se trata com cristais e mentalização, verifica a cor de sua aura, faz uso de técnicas orientais e americanas com a mesma presteza. Enfim, ele é um cosmopolita. 

O fenômeno da magia porém, jamais será totalmente apreendido pela ideologia individualista. Sem o respaldo do grupo ele não existe. O indivíduo moderno sabe disso, mas também sabe que vive sua crença ao lado de milhares de pessoas que vêem televisão todos os dias e compram revistas e livros que tratam do assunto, ou pelo menos acredita (parte integrante da crença no oculto) que outras pessoas seguem o mesmo caminho. 

Esta magia do homem para o homem é um mito, no sentido de que nega a construção ideológica deste homem e desta prática. Naturaliza o universo vivido, mitificando a sua prática cotidiana, em especial, através de uma “fala” específica, a qual diz mais pela forma utilizada que pelo conteúdo veiculado. Esta forma busca naturalizar o conceito, tirando das coisas a memória de sua fabricação. 

O mito da magia moderna priva o fenômeno de sua história. Ele passa a servir para a constatação: o mundo é um espelho do homem e vice-versa, pouco explicando para além do subjetivismo moderno, mas fornecendo um entendimento, ou a ilusão de um, a partir de cada sujeito, que muito satisfaz o homem cosmopolita de nosso tempo. 
 



 

Gilberto Lucio da Silva
é psicólogo do Tribunal de Justiça de Pernambuco 
e analista ministerial em psicologia do Ministério Público do Estado. 
É escritor, autor e organizador de publicações. 




 

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