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O Saque de Tumbas no Tempo dos Faraós


por: Moacir Elias Santos

         Introdução

            Os viajantes e antiquários que chegaram ao Egito posteriormente à invasão napoleônica, em 1798, depararam-se com uma fonte de renda sem igual: as antigüidades. A “coleta”, na realidade uma pilhagem, destes artefatos era financiada pelas autoridades européias e propiciou a formação de núcleos de antigüidades egípcias em inúmeros museus espalhados pelos continentes. 

            Dentre os antiquários destacamos o italiano Giovani Baptista Belzoni, e entre inúmeros saqueadores conhecidos, mencionaremos o clã dos Abd el-Rassoul. Belzoni foi, talvez, o principal responsável pelo achado, entre 1816 e 1819, das múmias e parte dos artefatos egípcios atualmente conservados no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Posteriormente, em 1871, dois saqueadores, os irmãos Ahmed e Mohamed Abd el-Rassoul encontraram o que viria a ser uma das maiores descobertas da Arqueologia: o primeiro “Esconderijo Real” em Deir el-Bahari. Nestes dois casos, o antiquário e os saqueadores, segundo suas narrativas, depararam-se com um contexto perturbado1 nas tumbas. Tais relatos confirmam que estes indivíduos não foram os únicos responsáveis pela perturbação das mesmas, pois esta já ocorrera anteriormente à sua descoberta, em tempos faraônicos. 

            Revela-se, portanto, dois momentos de interferência no contexto original das tumbas, um primeiro relacionado ao período faraônico e outro no século XIX. Deste modo, consideramos relevante para o estudo de coleções, como a do Museu Nacional, a compreensão de como aconteceram estes saques e de como eles influenciaram na reunião de peças pertencentes a diferentes épocas e que acabaram associando-se a um mesmo contexto. 

Preparação para a Vida Futura 

Nenhuma crença foi tão marcante na sociedade egípcia, ao longo de cinco mil anos, quanto a da vida após a morte. Nos túmulos pré-dinásticos, simples covas circulares cobertas de madeira, encimada por uma pilha de rochas e sedimentos, o morto era inumado em posição fetal, com a face voltada para o Oeste. Ao seu redor, eram depositados vasos cerâmicos, facas de sílex, adornos, entre outros objetos (El-Mahdy, 1995: 118). Tais evidências refletem, respectivamente, o renascimento e a preocupação com o bem estar do morto no outro mundo. Em épocas dinásticas, notadamente após o Primeiro Período Intermediário, a vida além-túmulo seria acessível a todos os egípcios que providenciassem a mumificação de seus corpos, procedimento este extremamente necessário para a sobrevivência das demais partes que formavam o indivíduo1. 

Igualmente importante era a preparação de um enxoval funerário, o qual incluía, além de alimentos e bebidas, o mobiliário que o falecido utilizou durante a vida (roupas, cosméticos, jóias, móveis ferramentas, etc.), bem como uma série de outros bens especialmente confeccionados para o uso na vida futura (Budge, 1995: 168). 

Segundo o Livro dos Mortos, após o funeral, o akh do morto dirigia-se ao horizonte ocidental, onde ficava a Sala do Julgamento presidida pelo deus Osíris (El-Mahdy, 1995: 154). Perante quarenta e dois deuses, o morto declarava sua inocência, enquanto em uma balança o seu coração (representação da consciência) era pesado contra a pena da deusa Maat (representação do equilíbrio), com o objetivo de verificar que o morto não houvesse mesmo cometido as quarenta e duas ações que contavam da “confissão negativa” (encantamento n° 125), como vemos abaixo: 

“Ó tu, cujos passos são longos, que vens de Heliópolis, eu não menti.” e, 

“Ó tu, que és abraçado pelo fogo, que vens de Khereha, eu não roubei.” (Faulkner, 1993: 31) 

A razão destas ações serem negadas demonstra que as mesmas faziam parte do cotidiano egípcio. Os próprios símbolos formadores das palavras “mentira e “roubo” refletem igualmente seu significado. Na palavra mentira, grg, o determinativo é um pequeno pássaro que representa ações pequenas ou mundanas; e na palavra roubo, awAi, o determinativo é um homem batendo com um bastão, sem dúvida uma ação repressora ou condenatória, o que demonstra que extraía-se confissões de quem roubava através de bastonadas nas palmas das mãos e nas solas dos pés. 

O morto, caso fosse considerado transgressor de alguma das quarenta e duas ações condenadas, fato que nunca aparece representado nas vinhetas dos papiros, teria seu akh devorado por uma criatura híbrida chamada Ammit2, a “engolidora de almas”. Se fosse considerado puro, tornar-se-ia um justificado, mAa-xrw, e passaria a viver eternamente no reino do deus Osíris. 

As Tumbas 

Para os egípcios, a palavra pr, significava casa; esta mesma palavra era também utilizada para denominar a “tumba”, “Casa da Eternidade” (Faulkner, 1976: 89). Os tipos de construções funerárias variaram muito no decorrer da história egípcia. Construíram-se tumbas de adobe3, mastabas, pirâmides e hipogeus4, todos com o mesmo objetivo: preservar o morto e seu enxoval funerário. Deveriam, portanto, ser estruturas eternas, um local seguro, resistente ao tempo e protegido contra os animais (Budge, 1995: 315). 

Os sepulcros estavam localizados em áreas estratégicas, longe das enchentes periódicas do Nilo e respeitando duas concepções simbólicas: o deserto ocidental onde tudo perece e o local onde o sol se põe, ou seja, a morte (Lurker, 1995: 14). 

As construções eternas permaneceram, mas foram lesadas pela sua própria imponência: despertaram a atenção e, conseqüentemente, a cobiça entre os homens. A eternidade dos mortos estava ameaçada pela atividade de saqueadores movidos pela busca de tesouros. 

Os arquitetos dos Antigo e Médio Reinos, conscientes dos saques, tentaram resolver o problema incluindo passagens secretas, fossos e câmaras falsas no interior das tumbas. Todas as modificações foram ineficientes, muitas das mastabas e pirâmides em Gizé, Sakara, Dashur, Hawara, Lisht e El-Lahun foram encontradas completamente vazias (El-Nawaway, 1980: viii). Até a XVII dinastia, muitos sepulcros reais eram ligados aos templos funerários, onde os sacerdotes faziam oferendas diárias ao Ka do rei morto. Este culto funerário, na maioria dos casos, não perdurava senão por algum tempo após a inumação real; quando abandonado, o complexo funerário ficava à mercê de saqueadores (Desroches-Noblecourt, 1984: 50). 

No início da XVIII dinastia, os faraós, preocupados com os constantes roubos, decidiram esconder os hipogeus, separando-os dos templos funerários. Amenhotep I foi o pioneiro na construção de sua tumba subterrânea na margem ocidental de Tebas, em um vale deserto chamado Biban el-Moluk, conhecido atualmente como “Vale dos Reis”. Seu sucessor, Tothmés I, também adotou a construção de um hipogeu. Durante seu reinado, Ineni, um alto funcionário e arquiteto real, registrou a seguinte inscrição em sua própria tumba: 

“(...) Eu supervisionei a escavação da tumba de Sua Majestade na rocha, sozinho, sem ninguém ver ou ouvir (...)” (Harris e Weeks, 1973: 102). 

Esta inscrição é clara quanto à precaução no relativo à segurança da tumba. Mas até que ponto havia sigilo sobre a construção? 


 


A Vila de Deir el-Medina e os Saques 

Os trabalhadores e artesãos que construíam e decoravam as tumbas durante o Reino Novo habitavam em uma vila, localizada num pequeno vale na margem ocidental de Tebas, conhecida atualmente como Deir el-Medina. O nome provém do árabe “Monastério da Cidade”, devido à presença de um pequeno templo dedicado a deusa Hátor5, construído no período Ptolomaico e utilizado pelos coptas como monastério. 

A administração desta vila, bem como a da necrópole, estavam sob as ordens de um prefeito, governante de Tebas ocidental “Cidade dos Mortos”, enquanto em Tebas oriental, onde a maioria da população habitava, havia outro prefeito, o governante da “Cidade dos Vivos”. 

Os trabalhadores viviam isolados em aproximadamente setenta casas cercadas por uma muralha. A única entrada da vila localizava-se ao Norte, sob vigilância constante – controlava-se a entrada e saída de bens através de registro e inspeção. A construção das tumbas era efetuada por dois grupos, cada um com cerca de sessenta homens, escolhidos de acordo com o local onde moravam: à direita ou à esquerda da rua central da vila (Baines & Málek, 1996: 100). Permaneciam no vale durante uma semana egípcia (dez dias) e retornavam para descanso quando substituídos pelo outro grupo de trabalhadores. Dois “chefes dos trabalhadores” supervisionavam os grupos, sendo um para os trabalhadores que ficavam na vila e o outro para os que estavam no Vale dos Reis. Ao término de cada mês, os trabalhadores e artesãos recebiam seu salário pago em espécie (grãos, legumes, peixes, óleo, entre outros) (Taylor, 1995: 36). 

De um depósito, chamado de sebakh, localizado próximo ao templo da deusa Hátor, provêm as informações mais interessantes sobre o cotidiano desta comunidade há mais de três mil anos. A missão francesa descobriu inúmeros registros em hierático6, ou em hieróglifos cursivos, escritos sobre ostracas (lascas de calcário ou fragmentos de cerâmica). Muitas outras foram encontradas misturadas à massa de tijolos de adobe, nas paredes das casas (Desroches-Noblecourt, 1984: 46). Os dados provenientes de escavações arqueológicas, ostracas e papiros demonstram que inúmeros habitantes de Deir el-Medina estavam envolvidos com os saques de tumbas. 

Segundo uma ostraca (Cairo n° 25521) e um papiro (Salt n° 124), Paneb, o chefe dos trabalhadores no reinado do faraó Siptah II (início da XX dinastia), estava envolvido em uma  série de irregularidades. Utilizou sua posição para proveito próprio: ordenou que um trabalhador estucasse a câmara funerária de sua tumba, e de outro exigiu que pintasse seu ataúde. Utilizou-se, ainda, de bens do Estado para seus propósitos o mais grave, porém, é que provavelmente assassinou Neferhotep, o outro chefe dos trabalhadores, que o havia denunciado. Outro crime de Paneb só foi descoberto pelos arqueólogos que escavaram sua casa: um fragmento de madeira recoberto com folhas de ouro, pertencente ao faraó Ramsés III, foi encontrado em sua adega (Desroches-Noblecourt, 1984: 48). Paneb conseguiu ocultar seu envolvimento com o saque da tumba real, confirmando assim que o governo raramente agia, devido a ausências de denúncias. 

Durante os reinados dos Raméssidas (c. 1200 – 1085 a. C.) os roubos tornaram-se mais do que evidentes. Em 1126 a. C., Paser, o prefeito da cidade dos vivos, em Tebas oriental, iniciou uma investigação, na qual apuraria quais eram as tumbas reais violadas. Na realidade, esta investigação deveria ter sido efetuada por Pawero, o prefeito da cidade dos mortos, já que a necrópole estava sob sua administração. Paser já suspeitava que Pawero estava envolvido com os saques, queria denunciá-lo e aos roubos. Havia uma rivalidade entre os dois prefeitos. Um documento, o papiro Amherst, encontrado nos anos 1850 em Tebas e conhecido desde 1874, atualmente na Pierpont Morgan Library, Nova Iorque, completa a história. Paser localizou os suspeitos (El-Nawaway, 1980: ix). Um deles, chamado Amonpanefer, (El-Mahdy, 1995: 26) narra assim os acontecimentos: 

“ No 13° ano do faraó, meu senhor, quatro anos atrás, eu concordei com o carpinteiro Seteknakht [em roubar as tumbas da necrópole]. Nós procuramos e nós encontramos a tumba [do rei Sobekemsaf], e de sua esposa real Nebkhaas7. Ela estava protegida e selada com gesso, mas nós forçamos a entrada. Nós abrimos seus ataúdes e os tecidos, nos quais eles estavam envolvidos, e encontramos a nobre múmia do rei, trajada como um guerreiro. Havia muitos amuletos ugiat8 e ornamentos em seu pescoço, e uma máscara de ouro sobre ele. A nobre múmia do rei estava completamente coberta  com ouro e seus ataúdes eram decorados com ouro e prata dentro e fora, e incrustados com pedras preciosas de todo o tipo. Nós pegamos o ouro, que nós encontramos na nobre múmia deste deus, e seus amuletos ugiat, e os ornamentos, os quais estavam em seu pescoço e os das bandagens, nas quais ele jazia. Nós encontramos a rainha, similarmente adornada, e nós pegamos tudo o que encontramos sobre ela também, nós colocamos fogo nas faixas, nós roubamos seus atavios, os quais nós encontramos sobre eles, objetos de ouro prata e bronze e dividimos entre nós. Nós dividimos o ouro, o qual nós encontramos sobre estes dois deuses e sobre suas múmias, em oito partes... depois nós atravessamos [o rio] em direção a Tebas. Poucos dias depois, os superintendentes do distrito ouviram sobre nosso saque no ocidente e eles prenderam-me e mantiveram-me na sala do prefeito de Tebas (...)” (Harris e Weeks, 1973: 104). 

Após a comprovação do roubo da tumba de Sobekemsaf e de Nebkhaas, Paser solicitou ao tjati9 Khaemwese uma inspeção na necrópole, afim de identificar quais tumbas haviam sido violadas. O papiro Abbott, conservado no Museu Britânico em Londres, descreve esta inspeção e aponta que apenas uma tumba real foi encontrada saqueada: 
 

“A pirâmide do faraó Setkhemre-Shedtawy, filho de Ra, Sobekemsaf: os ladrões arrombaram por um túnel através da câmara inferior da pirâmide para o saguão central da tumba do superintendente do celeiro do rei, Menkheperre Nebamon. A câmara funerária do rei foi encontrada vazia de seu senhor, como estava a câmara funerária da rainha, Nebkhaas, sua consorte. Os ladrões deixaram cair suas mãos sobre eles: O tjati, os nobres e os mordomos investigaram isto, e a maneira pela qual os saqueadores colocaram suas mãos sobre o rei e sua consorte foi determinada (...)” (Harris e Weeks, 1973: 105). 
 

Este fato demonstra uma contradição entre as declarações de Paser e de Pawero. Isto se devia, provavelmente, ao envolvimento deste último com os saques. Ele próprio deve ter conduzido a investigação e as ações de inúmeros saqueadores certamente foram ocultadas. 

Ainda no mesmo papiro, os inspetores se referem a violações de tumbas privadas e descrevem o caráter destrutivo das ações dos saqueadores: 

“ Os túmulos e tumbas na qual os privilegiados dos primeiros tempos, as habitantes e as pessoas da terra do descanso, no Ocidente da cidade: eles foram encontrados pelos saqueadores, que os violaram todos, arrancando seus donos de seus ataúdes e suas faixas, jogando-os através do deserto, e pilhando seu enxoval funerário, com o qual eles estavam, junto com o ouro e a prata e os objetos que estavam entre suas faixas” (Harris e Weeks, 1973: 105). 

            Tal relato seria suficiente para condenar Pawero por negligência. No entanto, ele ainda conseguiu assegurar seu posto e mantinha o mesmo discurso. Paser, por seu lado, continuou insistindo em provar que os roubos realmente existiam e obteve confissões de alguns saqueadores. Porém, perante o tjati, eles negavam seu envolvimento. 

            Paser tomou uma última decisão – listou as tumbas saqueadas para comunicar ao faraó os roubos. Entretanto, um comentário com Nesuamon, o mordomo real, prejudicou seu plano. Nesuamon escreveu uma carta a Khaemwese, afirmando: “seria uma ofensa se um na minha posição ouvisse tal coisa e a ocultasse” (Harris e Weeks, 1973: 107). 

            Kaemwase opunha-se às acusações de saques que, para ele, não tinham fundamento. Esta atitude teve como principal conseqüência a continuação da ação dos saqueadores. Paser só conseguiu conter os roubos depois de doze meses, quando uma nova tumba havia sido violada. Khaemwase, então, teve que admitir a existência dos saques e provavelmente foi deposto. 

            Um novo tjati, Nebmare-Nakht, com empenho, conseguiu prender quarenta e cinco saqueadores. No ano 19 do reinado de Ramsés XI, aproximadamente 1095 a. C., um interrogatório foi efetuado no templo da deusa Mut10 (Desroches-Noblecourt, 1984: 49). Entre os envolvidos estavam o inspetor do templo de Amon, Payesokar, o queimador de incenso do templo de Amon, Shed-Khonsu, o trombeteiro do templo de Amon, Amonkhaw, o estrangeiro, Userhet-Nakht, e o queimador de incenso Nesamon (Harris e Weeks, 1973: 108-111). As confissões foram obtidas através de bastonadas. Os papiros, entretanto, não mencionam o fim desta história. Os envolvidos no saque das tumbas tebanas provavelmente foram condenados e mortos. 

            As tentativas de fiscalização das tumbas continuaram. Horemkhenesi, chefe dos trabalhadores, deixou registrado em um grafite (n° 2138), a leste da entrada da tumba de Seti II, o seu trabalho: 

“Ano 20, segundo mês do verão, (...), a vinda do sacerdote-wab de Amon-Ra, rei dos deuses, o maior no grupo do local da verdade, Horemkenensi, para fazer a inspeção inicial no grande vale, com os agentes do grupo, os quais estavam sob seu comando: Heramonpena, (...), Kenamon e Sapaankh” (Taylor, 1995: 18). 

            Com a morte de Ramsés XI, o Egito entrou em um novo período de conturbação social. O Vale dos Reis não era, agora, um local seguro, nem mesmo para os vivos. Temerosos, os últimos trabalhadores de Deir el-Medina mudaram-se para o Sul, refugiando-se no interior das muralhas do templo de Medinet Habu. Posteriormente a esta mudança, os trabalhadores foram dispersos, sendo alguns recrutados pelo exército (Taylor, 1995: 38). 

            Preocupados com a segurança das múmias, os oficiais continuaram fiscalizando as tumbas conhecidas e começaram uma busca para encontrar as tumbas antigas. Iniciou-se um novo processo, em meados da XXI dinastia, uma espécie de confisco de bens que não haviam sido levados pelos saqueadores. Este episódio é às vezes descrito como “a saga das múmias errantes”. Os sacerdotes do templo de Karnak recolheram as múmias que ainda se encontraram nas tumbas. Muitas estavam danificadas e foram restauradas, reenfaixadas e depositadas em “novos” ataúdes, pertencentes a outros indivíduos cujas múmias provavelmente haviam sido destruídas (El-Nawaway, 1980: x). 

Inúmeras múmias passaram por várias tumbas, até serem depositadas em dois “esconderijos reais”. Este fato ocorreu no início da XXIII dinastia, durante o reinado do faraó Sheshonq I (c. 945 a. C.). O primeiro esconderijo era a tumba da rainha Inhapi, onde quarenta múmias (sendo trinta e duas de personalidades régias e oito sacerdotais) foram inumadas (El-Mahdy, 1995: 36-37). No segundo esconderijo, a tumba do faraó Amenhotep II, foram depositadas dez múmias reais e outras seis não identificadas. 

Em períodos posteriores, outros sepultamentos coletivos devem ter sido organizados da mesma maneira. Destes, certamente, como já observamos, são provenientes as múmias e diversos artefatos da coleção do Museu Nacional do Rio de Janeiro. 

As últimas tentativas de conter os saques das tumbas foram eficazes. O “descanso” das múmias só foi novamente perturbado dois mil anos depois, quando antiquários e saqueadores as descobriram no século XIX. 

Conclusão 

A preparação para uma vida futura, segundo a religião egípcia, devia incluir nos túmulos objetos que o morto iria reutilizar. Tais objetos foram o principal alvo da atividade dos saqueadores. Na tentativa de contê-los, antes mesmo dos saques serem efetuados, sua prática já era condenada pela ideologia religiosa. A arquitetura funerária foi modificada, as tumbas imponentes foram substituídas pelos discretos hipogeus, construídos longe dos templos funerários. 

A própria vila de Deir el-Medina, construída isoladamente, representa uma tentativa efetiva de vigilância do Estado sobre a população de trabalhadores e artesãos encarregados da construção das tumbas. Mesmo assim os saques ocorriam e, em algumas ocasiões, contavam com o apoio de autoridades responsáveis pela manutenção das tumbas, como comprovado pelas descrições contidas nos papiros e nas ostracas provenientes da vila. Estas atitudes eram combatidas por outras pessoas de posição equivalente que denunciaram estas ocorrências. Como última medida, os sacerdotes procuraram reunir as múmias restantes e artefatos funerários, e os depositaram em tumbas coletivas. Este material corresponderia ao que foi encontrado no século passado por antiquários e saqueadores e veio a constituir as coleções de museus atuais, como o Museu Nacional no Rio de Janeiro. 

Os fatores relativos aos saques contribuíram para estabelecer um contexto comum a estas coleções, que se incorporou à sua história e por isto se tornam imprescindíveis para seu estudo, já que ser tornaram mais uma regra do que exceção em se tratando de tumbas egípcias. 

Agradecimentos 

O autor agradece ao egiptólogo Prof. Dr. Ciro Flamarion Cardoso (Titular de História Antiga e Medieval da Universidade Federal Fluminense), a leitura do manuscrito e valiosas observações a ele efetuadas. 

Bibliografia 

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BUDGE, E. A. W. O livro egípcio dos mortos. Trad. Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Editora Pensamento, 1993. 

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DESROCHES-NOBLECOURT, C. Tutankhamen: life and death of a pharaoh. New York: Penguin Books, 1984. 

EHLEBRACHT, P. O roubo das pirâmides: 5000 anos de pilhagens no Egito. Trad. Vera Eller. São Paulo: Melhoramentos, 1981. 

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WEEKS, K. R. Valley of the kings. National Geographic Magazine. Washington D. C., v. 194, n. 3 p 2-33, sept. 1998. 

Notas 

1 Por contexto entendemos aqui a localização espaço-temporal de todo conjunto da cultura material que encontra-se em um sítio arqueológico. Quando este contexto (a exemplo uma tumba contendo uma múmia junto a seus pertences) é violado, os artefatos são geralmente remexidos, removidos e até mesmo roubados, isto significa que foram retirados de sua posição original (a que os antigos egípcios tinham deixado), alterando assim o referido contexto, tornando-o perturbado. 

2 Segundo a religião egípcia um indivíduo era composto por diversas partes: possuía um corpo físico (Khet); uma sombra (Shut); um nome (Ren); um coração (Ib); o “princípio de sustento” (Ka);e o “princípio de “mobilidade” (Ba). Estas partes separavam-se no instante da morte, e voltavam a se reunir após a mumificação do corpo e a realização de determinados rituais: surgindo então o Akh (princípio da imortalidade), configurando assim um morto transfigurado que existia eternamente. 

3 Deusa híbrida, representada com uma cabeça de crocodilo, a parte dianteira do corpo de leão e a parte posterior de hipopótamo. 

4 Material composto por argila e fibras de vegetais, muito empregado na confecção de tijolos secos ao sol. 

5 Tumbas subterrâneas escavadas na rocha. 

6 Deusa do amor, da música e da dança. Dentre suas várias representações, a mais comum é a de uma mulher coroada com o disco solar entre cornos bovinos. 

7 Escrita cursiva simplificada desenvolvida a partir dos hieróglifos. 

8 O faraó Sobekemsaf e sua esposa, bem como os outros soberanos da XVII dinastia, foram enterrados em Dra Abu el-Naga. As tumbas desta necrópole foram escavadas por Auguste Mariette, antes de 1860. Ele descobriu uma série de objetos com inscrições, fragmentos de ataúde “rishi” (com decoração em forma de plumas de pássaro), armas e jóias. Sobekemsaf reinou provavelmente entre 1630 e 1550, dividindo estes setenta anos com outros reis. Sua tumba foi saqueada provavelmente em 1080 a. C., permanecendo intacta por cerca de 550 anos, se considerarmos a data mais antiga, ou cerca de 500 anos com a data mais recente. 

9 Amuleto na forma do olho do deus Hórus (  ), utilizado popularmente para proteção. 

10 Título equivalente a Vizir ou Primeiro Ministro. 

11 Deusa considerada o “Olho de Ra”, representada como uma mulher portando a coroa do    Alto e Baixo Egito. 
 

Moacir Elias Santos
Mestre em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
Professor de História Antiga e Arqueologia no Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade) 
moacirsadowski@hotmail.com


 
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