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O Que É a Panema Indígena.
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                                                                     por:  Eduardo Galvão

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Além das diversas crenças indígenas, existe uma que por penetrar tão intimamente na vida cotidiana do caboclo, é de particular importância ao considerar-se a vida religiosa dos índios. É a crença na panema ou panemice, uma força mágica, não materializada, que à maneira do mana dos polinésios é capaz de infectar criaturas humanas, animais ou objetos. 

Panema é, porém, um mana negativo. Não empresta força ou poder extraordinário; ao contrário, incapacita o objeto de sua ação. 

O conceito de panema passou ao linguajar popular da Amazônia com o significado de “má sorte”, “desgraça”, “infelicidade”. 

Incapacidade, talvez a melhor interpretação. Não se trata propriamente de infelicidade ocasional, má sorte, azar, mas de uma incapacidade de ação, cujas causas podem ser reconhecidas, evitadas e para as quais existem processos apropriados. Não resulta de um acaso infeliz, mas da infração de determinados preceitos. 
 

Um caçador, ou pescador, cujo repetido insucesso não dá margem a atribuí-lo a causas consideradas naturais, isto é, à estação do ano, influência desse ou daquele fator explicável pelo conhecimento adequado do ambiente, acredita que ele próprio ou um dos instrumentos de que se utiliza, a linha, o anzol, a carabina, estejam empanemados. Por um processo diagnóstico de tentativas acaba por determinar qual o objeto onde está localizada a panema. 

Pela facilidade de contraí-la existe um sem-número de técnicas preventivas. Algumas são simples banhos de determinadas ervas, outras, defumações com alho ou pimenta, finalmente existem as que se referem diretamente às fontes de panema. Dessas as mais “venenosas” são: o ato de uma mulher grávida alimentar-se de caça ou pescado; mulheres menstruadas que tocam um dos objetos de que se serve o caboclo para a caça ou a pesca; desconfiança, mal-estar entre amigos provocado pela inveja, sobretudo quando se refere a alimentos; atirar ossos ou espinhos de peixe no quintal onde fiquem ao alcance de animais domésticos; finalmente, as provocadas por feitiçaria. 

As mulheres grávidas são especialmente temidas por sua capacidade de infeccionar alguém embora seja essa uma conseqüência estranha a sua vontade. Os caboclos que vendem sua embiara têm, habitualmente, o cuidado de apurar quem é o comprador, para evitar que a peça vá cair em mãos de uma gestante. Não é tanto pelo medo dos efeitos da panema em si mesma, como pelas conseqüências do tratamento para afastar a panema. Acredita-se que a cura fará mal à mulher. Um aborto é o resultado mais provável. 
 

Um caso bastante típico foi-nos relatado pela própria vítima. Estava retornando de uma viagem de negócios quando aproou a um rancho para refazer a matula. O caboclo, um caçador, ao vender-lhe um pedaço de carne de anta, indagou do estado de sua esposa. Nosso informante respondeu que ela estava grávida, porém que nada havia a temer, uma vez que ele próprio ia consumir a carne. Ademais, sua esposa não tinha “veneno”. Não deu maior importância ao fato. Contudo ao regressar à casa, encontrou sua mulher muito doente. Sofria de uma terrível urticária. Ela própria querendo uma explicação para o mal que a afligia, indagou do marido se não havia comido qualquer coisa de ruim para a criança. Ele lembrou-se do episódio da anta, e logo mandou aviso ao caboclo para que descontinuasse qualquer tratamento de cura da panema que porventura o estivesse prejudicando. Temia que algo viesse acontecer à mulher e à criança. A precaução foi debalde ou muito tardia, pois a criança mal resistiu a um mês de nascida, falecendo “descascando toda”. A causa, ele acredita firmemente, foi a continuação do tratamento contra a panema que devia ter infectado o caçador. Parte da culpa cabia a ele mesmo por ter comprado aquela caça não dando importância à advertência do caboclo.

Uma vez que o indivíduo percebe estar empanemado. só lhe resta tratar-se. A si próprio ou a um dos instrumentos que utiliza, pois a panema afeta igualmente seres vivos e objetos. Contudo, se a fonte de panema é uma mulher grávida, realizar o tratamento é uma quebra de ética, pelos males que podem advir à gestante. É aconselhável o indivíduo dirigir-se à mulher que acredita ser a causa da panema, de modo que ela própria presida ao tratamento, única forma de evitar-lhe qualquer malefício. 
 

Benedito, um dos melhores pescadores de Itá, sempre indaga de seus fregueses, do estado das esposas. Se vem a empanemar-se, porque a despeito de seus cuidados uma gestante alimentou-se de pescado por ele obtido, ele vai falar-lhe. A mulher tem que mastigar a sua linha com a boca cheia de pimenta. Se isso dá resultado, deixa de lado a linha que acredita empanemada. Ele afirma que nem todos têm esse cuidado, algumas vezes “eles têm vergonha de falar pra mulher”. O resultado é que tratam de curar-se sem intervenção da mulher o que traz más conseqüências. No caso de um caçador, a mulher que foi a fonte da panema, deve mastigar pimenta e deixar a baba escorrer pelo cano e pela mira da arma. Porém, se a panema afetou o próprio indivíduo, e não um de seus instrumentos, o melhor é deixar de caçar ou pescar por algum tempo, e acima de tudo, não tentar curar-se. Devido a isso as mulheres grávidas, em geral, somente se alimentam de carne ou peixe apanhados pelos maridos ou parentes próximos. No caso de ficarem empanemadas não tentarão a cura, e por outro lado, dispõem de recursos que os outros não têm. Sempre que o marido, irmão ou cunhado lhe traz uma caça ou peixe, retira parte do fígado do animal que mastiga com pimenta e em seguida cospe sobre as brasas do fogão. A dieta de uma gestante restringe-se, por isso, à embiara que o marido ou parente próximo obtenha, ou então, à carne de gado ou ao peixe seco e salgado que se vendem nas tabernas. Acredita-se que alimento dessa espécie não tenha efeito sobre a panema.
 

O contato de mulheres menstruadas com instrumentos que o indivíduo utiliza, a carabina, a linha, rede etc., é certo empanemá-los. Todavia, o fato tem remédio, pois os processos de tratamento ou desinfecção não resultam em nenhum mal ao causador da panema. O mesmo se refere aos indivíduos descuidados que atiram os restos dos animais a qualquer canto, deixando-os expostos a animais domésticos como cachorros e porcos. Especial cuidado recomenda-se para o pescado que resulta de uma linha nova. O pescador não deve vendê-lo ou mesmo dá-lo a qualquer pessoa, mas levar para sua própria casa, onde após consumi-lo deposita os restos sobre o fumeiro, parte da cobertura que fica sobre o fogão, até que fiquem completamente secos, quando então poderá jogá-los fora, sempre, porém, com a precaução de não deixar ao alcance de animais domésticos.

Desconfiança, ou mal-estar entre dois companheiros, provocada pelo maior sucesso de um deles na caça ou na pesca, pode empanemar o indivíduo invejado. Mesmo crianças que desejam demasiado um alimento que os pais lhes proíbem podem torná-los panema. Desconfiança, gula, inveja podem levar o indivíduo a recorrer à feitiçaria para empanemar o desafeto. É bastante apoderar-se de um pedaço da embiara obtida pela futura vítima e atirá-la na fossa sanitária. Defecar ou urinar sobre um pedaço de alimento é provocar uma das piores formas de panema.
 

É preciso cuidado com o tratamento da peça abatida. Lavá-la no igarapé ou mesmo às mãos, de modo a que a água venha a ficar suja de sangue é atrair panema da mãe do igarapé, ou conseqüência pior, ficar assombrado. Os restos da caça devem ser atirados longe das trilhas, pois, se pisados por outrem, também podem atrair panema para o caçador.

Os métodos corriqueiros para a cura de panema são do conhecimento de todos que lidam com peixe ou caça. Consistem, sobretudo, de banhos e defumações em que o alho e a pimenta são os principais elementos. Ninho do gavião cauré, folhas de aninga e uma variedade de “plantas cocentas e fedorentas” são usados em adição. A dosagem, composição e processo de tratamento variam muito segundo as preferências ou a experiência pessoal, ou segundo o grau da panema. Aquelas que se dedicam continuamente à prática da pesca ou da caça, como acontece a alguns moradores da terceira rua ou em geral ao habitante das freguesias, recorrem habitualmente a banhos e defumações, a que também submetem sua aparelhagem, como técnica preventiva ao contágio da panema.
 

A sensação, a intensidade da panema somente o caboclo é capaz de exprimir. O efeito é geralmente descrito como uma incapacidade temporária cujas causas não encontram apoio em circunstâncias consideradas naturais. Diagnostica-se mais facilmente pelo repetido insucesso de um indivíduo comparado à sua experiência anterior ou aos bons resultados dos companheiros. A panema mais simples é suscetível de abandonar o objeto contaminado com a passagem do tempo, desfaz-se com o próprio tempo.

A importância dessa crença na vida religiosa dos índios é facilmente avaliada quando se consideram os meios locais de subsistência. Na cidade, exceto em ocasiões excepcionais, não se abate uma rês senão em cada quinze dias, ou espaço de tempo maior. Nas vizinhanças, a base da alimentação é o peixe, recorrendo-se vez por outra à caça. Existem pescadores semiprofissionais na zona urbana, porém nas freguesias de roça ou de seringa, o indivíduo depende muito de sua iniciativa pessoal na obtenção do alimento. Panema afeta ao pescador ou caçador, individualmente, como àqueles que o cercam, o caso de mulheres grávidas, ou da desconfiança entre companheiros, por exemplo. 
 

A crença da penetra, por isso mesmo, na vida privada e coletiva da comunidade, e está intimamente ligada às técnicas de subsistência.

 


 
 
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